Buscar
  • Liana Stoll @comidanalupa

Há hormônios no frango que você consome?

Atualizado: 8 de Ago de 2019

Mitos a respeito de hormônios na produção de aves alimentam falsas crenças sobre o rápido crescimento de frangos modernos quando comparados com aqueles criados em décadas anteriores.



Texto por Lídia Sbaraini Arend*, para Comida na Lupa.


*Médica Veterinária - UFRGS

Mestre e Doutoranda em Ciência Animal pela Universidade de Illinois - Urbana Champaign (UIUC)



AFINAL, FRANGO TEM HORMÔNIO?


Primeiramente, é importante lembrarmos que hormônios são produzidos naturalmente por plantas, animais e humanos e são imprescindíveis para o funcionamento normal do organismo, regulando processos como crescimento e reprodução.


Apesar do uso de hormônios na produção de aves ser proibido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) no Brasil desde 2004 [1] e em países como Estados Unidos desde 1950 [2], rumores a respeito de “frangos ‘cheios’ de hormônios” e perguntas recorrentes como por que os frangos crescem tão rapidamente?” geram dúvidas sobre o uso de hormônios na produção de aves. Por esse motivo que o MAPA, desde 2014, permite que embalagens de carnes de aves contenham as frases “livre de hormônios” ou “sem hormônios, conforme determina a legislação brasileira”. Mas é preciso ficar claro que aquelas embalagens que não possuem os “avisos”, também não possuem nenhuma adição hormonal.


Inúmeras pesquisas são realizadas desde a década de 40, em que foram testados diferentes métodos e tipos de hormônios que, em teoria, poderiam acelerar o crescimento dos frangos. Essas pesquisas se tornaram necessárias para o entendimento e também para a desmistificação do assunto.


No entanto, testes realizados com hormônios esteroidais (hormônios derivados do colesterol) demonstram que ao invés de acelerar o crescimento dos frangos, os hormônios inibiram o seu crescimento [3].


Além disso, estima-se que a quantidade de hormônios que ingerimos – ou seja, hormônios que estão presentes nos alimentos - chega no máximo a 6% do que é naturalmente produzido pelo corpo humano. Isso considerando todos os tipos de alimentos: vegetais, sementes, carnes, etc. Carnes são minimamente responsáveis pela ingestão, enquanto a ingestão de fitoestrógenos (sementes de plantas como soja, feijão, linhaça) e exposição a químicos ambientais em contato com água e comida são os principais “culpados”.

Mas afinal, o uso de “hormônios de crescimento” realmente acelera o crescimento das aves?

O principal foco de pesquisas relacionadas ao crescimento rápido de frangos tem sido a aplicação (injetável) ou fornecimento (alimentação) de hormônios de crescimento.


Resumidamente, essas pesquisas descobriram que a ingestão de hormônios por via oral não é eficiente para o crescimento das aves, já que os hormônios são rapidamente degradados pelo sistema gastrointestinal. Por via injetável esse tipo de degradação não ocorre. No entanto, estudos verificaram que uma única injeção – mesmo em altas concentrações - não é suficiente para acelerar o crescimento das aves, sendo necessárias diversas aplicações ao longo da vida dos frangos (imitando o processo natural de liberação de hormônios). A dificuldade de aplicação, por si só, já inviabiliza o processo - milhões de frangos são criados anualmente em diversas granjas, já imaginou a dificuldade?!


Além da dificuldade de aplicação, os resultados das pesquisas demonstraram ineficiência no crescimento, e até mesmo, diminuição do crescimento das aves quando os hormônios foram aplicados no ovo ou após o nascimento do frango. Uma pesquisa foi capaz de encontrar alguns possíveis efeitos positivos no crescimento de ossos, no peso, na melhora da eficiência alimentar e redução de gordura das aves [3]. Porém, 336 injeções foram necessárias para produzir esse efeito.


Conheça as 5 principais razões para que não se faça aplicação de hormônios em frangos:


1. NÃO EXISTE RAZÃO PRÁTICA, TÉCNICA OU CIENTÍFICA por trás do uso.


2. NÃO HÁ NECESSIDADE. Através de técnicas modernas e estudos de genética e nutrição, o ganho de peso almejado ocorre sem que sejam necessárias qualquer intervenção.


3. CUSTO ELEVADO. O custo da compra de hormônios (que são produzidos laboratorialmente) é muito elevado, pois não há produção em grande escala e o lucro real de uma produção de frangos não seria suficiente para justificar o custo dos produtos adicionados. Logo, torna-se economicamente inviável.


4. É ILEGAL. Muitos países possuem legislação especifica, e o Brasil é um deles.


5. A INDÚSTRIA É PROFISSIONAL. A indústria de frangos visa sim ao lucro, mas também a uma criação e produção de frangos através de bem estar animal, saúde, e com requerimentos de qualidade de mercados internacionais que devem e são mantidos e zelados.




O que colabora para que os frangos cresçam tão rapidamente nos dias de hoje, se comparado às décadas anteriores?

A resposta está na GENÉTICA, NUTRIÇÃO, SAÚDE, MANEJO, BEM ESTAR E AMBIENTE.

Todos os anos, há décadas, são realizadas pesquisas de melhoramento genético para que as aves consigam aproveitar ao máximo os nutrientes da ração, e assim tenham uma melhor eficiência alimentar, maior crescimento e desenvolvimento. O desenvolvimento genético permite que as aves aproveitem melhor os nutrientes da ração e melhorem a conversão energética, ganhando mais peso e tamanho. Assim, após anos de cruzamento entre galinhas e galos de “melhores” genéticas, o que se tem hoje são animais com portes significativamente maiores que as aves dos anos 50.

Além do desenvolvimento genético, pesquisas em nutrição animal têm sido realizadas em larga escala procurando a melhor, mais completa e balanceada alimentação para suprir ao máximo as necessidades energéticas das aves. Ou seja, aves comerciais recebem todos os nutrientes que necessitam para expressar o seu melhor potencial genético. Também é muito importante lembrarmos que animais saudáveis, criados em um ambiente que atende suas necessidades de clima e bem-estar em conjunto com uma nutrição balanceada, apresentam ganho de produtividade de forma a atender os objetivos da indústria e também do consumidor.



Referências:


[1] Machado, R. 2016 Uso de hormônios na criação de aves é mito. Conselho Federal de Medicina Veterinaria (CFMV) http://portal.cfmv.gov.br/noticia/index/id/4954


[2] Poultry & The Hormone Myth. 2016. https://meatscience.org/TheMeatWeEat/topics/raising-animals-for-meat/article/2016/03/14/poultry-the-hormone-myth


[3] G. N. Scheuermann, A. Cunha Jr., L. Caron 2012. Nonscientific restrictions to poultry production: main global myth and beliefs. XXIV World’s Poultry Congress. Brazil. https://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/938070/1/final6892.pdf


[4] Watkins, S.; Clark, F.D.; Thaxton, I. Hormones in Our Poultry: Is It for Real? Agriculture and Natural Resources. University of Arkansas System. University of Arkansas United States Department of Agriculture and County Governments Cooperating https://www.uaex.edu/publications/PDF/FSA-8007.pdf


[5] Czarick, M. and B. Fairchild. 2012. Seven reasons why chickens are NOT fed hormones. Poultry Housing Tips 24(4):1-4.






846 visualizações